13 de Abril de 2012 - 10h48
Os dados mais recentes sobre a inflação na
China, que mostraram um aumento maior que o esperado nos preços ao consumidor e
um declínio nos preços ao produtor em março, surpreenderam o mercado, mas não
devem influenciar a forma como a economia está sendo gerida, afirmam os
analistas ouvidos pela Agência Leia. De acordo com eles, o que
poderia provocar uma guinada no rumo das políticas chinesas seria uma desaceleração
mais forte que a prevista na atividade do país.
Na segunda-feira, o escritório de estatísticas da China informou
que a inflação ao consumidor atingiu 3,6% em março em base de comparação anual, superando as expectativas do mercado, que previa um ganho de 3,4%. Na ocasião,
alguns players cogitaram que o indicador poderia deixar as autoridades chinesas
cautelosas quanto à adoção de mais estímulos monetários à economia.
Analistas, no entanto, dizem que o número não foi interpretado como um
"sinalamarelo".
"Os dados não colocam em risco a estratégia de afrouxamento da
política monetária da China porque a inflação desacelerou nos últimos meses. Esta última divulgação foi uma elevação pontual, causada principalmente pelos alimentos. Não foi uma alta generalizada", explica Raphael Martello, economista da Tendências Consultoria.
Segundo o escritório de estatísticas chinês, os preços de alimentos
tiveram alta anual de 7,5% em março, enquanto os de produtos não alimentícios subiram somente 1,8%. Os dados sobre os preços "eram importantes quando a pressão inflacionária chinesa era muito forte e o Pboc [Banco do Povo da China, o banco central do país] trabalhava para controlá-la. Mas como a inflação não é um problema no curto prazo, a relevância agora é menor", diz o economista.
Os especialistas também não enxergaram motivo para alarde no fato
de o índice de preços ao produtor da China ter encolhido 0,3% em março em relação a igual mês de 2011. Foi a primeira vez em que o indicador ficou em campo negativo em termos de comparação anual desde dezembro de 2009.
"A queda reflete de maneira geral a direção da maioria dos preços
das commodities globais. Se olharmos na tendência sequencial, na comparação percentual mês contra mês ajustada sazonalmente, o índice se estabilizou e
está apontando para uma subida gradual nos últimos meses", afirma Grace
Ng, economista sênior de China do JP Morgan em Hong Kong.
Daqui para frente, a atenção dos mercados e das autoridades da
China estará voltada para dados que mostrem com mais clareza o nível de atividade econômica do país. O governo chinês reduziu neste ano sua meta de crescimento
de 8,0% para 7,5% a fim de realizar ajustes estruturais e garantir que o consumo interno ganhe mais peso na economia em detrimento das exportações e dos investimentos.
Na quinta-feira à noite, a China divulgou que o Produto Interno
Bruto (PIB) cresceu 8,1% no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período do ano passado. A expansão foi a menor em 11 trimestres e representou uma desaceleração na comparação com o quarto trimestre de 2011, quando a economia cresceu 8,9% em termos anuais.
Diante deste cenário, a política monetária a ser adotada pelo Pboc
terá de se preocupar mais com crescimento e menos com controle de inflação, embora a vigilância sobre os preços continue.
"Os números voláteis [de inflação] emergindo da China no primeiro
trimestre sugerem que o governo agirá cautelosamente", acredita Michal
Meidan,analista de Ásia da consultoria Eurasia. "Eles [autoridades chinesas]
terão de equilibrar as expectativas inflacionárias com a necessidade de impulsionar aeconomia, especialmente ao longo da transição política. Embora os políticos queiram proteger o crescimento entre 7,5% e 8%, eles não devem anunciar estímulos comparados aos de 2009. Provavelmente veremos um alívio seletivo do aperto monetário, principalmente para apoiar pequenas e médias empresas, assim como, mais para o final do ano, um alívio nas restrições de propriedades".
Para Martin Hennecke, diretor associado do Tyche Group, de Hong
Kong, "os recentes números econômicos da China ainda estão fortes em relação aos de outros países. Há muita discussão a respeito da grande desaceleração da China, mas precisamos ter em mente que em muitas nações vemos contração econômica, queda das importações e exportações, etc."
Ele acrescentou que o ritmo de expansão do PIB chinês está
diminuindo em parte por causa da decisão deliberada do governo de impor obstáculos ao crescimento, mas que a desaceleração econômica no país não deve prejudicar
o cenário global.
Fonte: Ivan Ryngelblum / Agência Leia